Estágios de Saúde

à Trabalho apresentado no III Congresso de Saúde e Espiritualidade de MG, em agosto de 2008, na Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, MG. (Carlos Eduardo Sobreira Maciel  – carlos.amemg@hotmail.com )

I – Estágios de Saúde

“Saúde é a real conexão criatura/Criador, e a doença é contrário momentâneo de tal fato”(Joseph Gleber – “O Homem Sadio”)

1 – Saúde Fragmentada: Joseph Gleber, no livro “O Homem Sadio”, conceitua, como vimos, perfeitamente, saúde e doença. Joseph parte do princípio de que o hausto do Criador é Divina liberação de Amor em forma de energia e que esta se manifesta na vida de várias formas. Então teremos saúde quando nos harmonizamos com o Criador, no trabalho, na elaboração do conhecimento e na vivência íntima.

Esta é a visão do mentor que consegue enxergar o ser humano de forma unicista, integral. Nós, como bebês espirituais que acabaram de abrir os olhos, temos uma visão limitada da vida e por isso enxergamos a saúde de forma fracionada, em partes, em estágios – vemos a saúde como um bem estar bio-psico-sócio-espiritual.

2 – Danos da fragmentação: Temos o hábito de compartimentar tudo. Dividimos as coisas em partes, didaticamente, para estudá-las e compreendê-las. Na realidade parecemos crianças desmontando brinquedos, por curiosidade, e depois não conseguimos remontá-los. Aqui na Faculdade (de Medicina, onde foi apresentado o III Congresso…) nós estudamos o ser humano de forma desintegrada – embriologia, fisiologia, anatomia, farmacologia, patologia – tudo separado. E num continuum deste costume, fizemos residências em diversas especialidades. Ao contrário de antigamente que havia um médico que cuidava de tudo, hoje cada especialista cuida de uma parte – é médico disso, daquilo e ‘daquiloutro’. Se  temos uma separação do ser humano em partes, na saúde mental há um aprofundamento desta separação. Na psiquiatria os aspectos biológicos, sociais, ocupacionais, psicológicos, políticos, jurídicos e culturais são marcantes. E ainda há a questão espiritual.

A psiquiatria, mais do que qualquer especialidade, tem interfaces com todas estas áreas e com a realidade espiritual – muitas vezes aquilo que parece delírio ou alucinações é uma experiência mediúnica ou um processo obsessivo, e vice-versa. A fragmentação aqui é ainda maior. Enfim, compartimentamos a saúde, o estudo da saúde e o cuidado com os pacientes.   O lado bom é que aprofundamos tanto que sabemos muito de uma parte. Mas há danos – temos dificuldades em visualizar o todo de uma forma integrada e há comprometimento na comunicação entre os diversos especialistas médicos e entre estes e os outro profissionais da área de saúde: terapeutas ocupacionais, psicólogos, fisioterapeutas,etc. Isso resulta em prejuízo para o próprio paciente. Vejamos o que pode acontecer: Numa fila do SUS uma paciente de uma dor abdominal que lhe incomoda, sem explicação, há dias, com uma senhora também paciente da mesma fila. Queixava-se porque vários especialistas haviam lhe examinado e ninguém descobria o seu problema. Nos últimos dias, desde que sua dor havia começado, a paciente tinha passado em três especialistas. O gastroenterologista diagnosticou refluxo gastro-esofágico. O neurologista diagnosticou uma dor irradiada provocada por um pinçamento de um nervo na coluna torácica. E finalmente, o meu colega psiquiatra falou que aquela dor era somatização – de fundo emocional. Mas a dor continuava… Então a senhora, que escutava pacientemente, perguntou: “ Você comeu alguma coisa hoje?”. A paciente respondeu que não comia há dias porque estava sem dinheiro… A senhora: “Oh minha filha… vem cá que lhe dou um prato de comida… sua dor é fome!”. Nunca me esquecerei desta história, quadro de crítica do grupo teatral do qual eu participei por alguns anos aqui na escola.

3 – Percepção integral: Precisamos então, abrir os olhos e ouvidos para perceber o ser humano de uma forma integral. Mas não digo apenas de uma humanização do médico que deverá considerar todas as partes, mas que deveríamos tentar resgatar um diálogo entre todos os terapeutas para melhor cuidar da pessoa.

Cito aqui um exemplo desta tentativa, que se faz no Hospital Espírita André Luiz, onde os terapeutas (médicos clínicos, homeopatas e psiquiatras, TOs, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e voluntários do Departamento de Assistência Espiritual) tentam “colar” as partes do sujeito através de um trabalho interdisciplinar. Esta retomada da visão holística do ser é uma das propostas médico-espíritas, porque todo trabalho terapêutico que não consiga ver o homem como um conjunto de espírito e matéria, oferecerá somente paliativos ao homem que em breve retornará ao seu estado doentio.

4 – Níveis de saúde: Voltando ao livro “O Homem Sadio”, Joseph fala também de estágios de saúde sob um outro ponto de vista. Vimos a saúde fragmentada em estágios – de forma horizontal. Mas há também uma visão vertical. Cada pessoa estaria em uma posição com mais ou menos saúde, mas  buscando receber alta das enfermarias do planeta Terra.

Sob este ponto de vista podemos pensar o seguinte: que há estágios da saúde, diversos níveis, como uma escada que nos leva da doença mais severa ao topo da escada – saúde plena, local onde não mais precisaremos reencarnar para drenar no corpo físico, os núcleos adoecidos do corpo espiritual.

No topo da escada reencontraremos a Luz, da qual nos desviamos voluntariamente… Nesta escada da saúde, os primeiros degraus seriam aqueles das graves patologias psiquiátricas, as psicoses, onde existem lesões profundas no corpo mental. Mais acima teríamos as doenças afetivas e suas lesões em corpo astral. Subindo, lesões físicas de várias formas.

5 – A relatividade entre os estados – saúde e doença: Independente do local, ou degrau onde nos encontramos, independente da doença, dificuldade ou prova que tivermos, expressaremos mais ou menos saúde, de acordo com a nossa postura diante da dor. Dentro desta perspectiva, abro aqui, neste momento, um espaço para refletirmos mais cuidadosamente sobre os conceitos de saúde e doença.

Essa reflexão é importante porque ao tomarmos consciência desta relatividade, poderemos então, com mais segurança, dar mais um passo – pensar nos recursos que podemos utilizar para ‘subir a escada’.

II – Reflexão sobre Saúde e Doença – Revendo Posições e Reconhecendo Estágios

“Coragem são as asas da alma. Coragem não é ausência do medo. É lançar-se, a despeito dele.” (Rubem Alves – “Concerto para Corpo e Alma”)

– Veremos aqui que a saúde seria a força dessas asas. Não seria a ausência da doença. Seria lançar-se, a despeito dela…

1 – Introdução: a medicina muitas vezes tem uma postura estreita em relação ao homem, enxergando-o de forma reducionista, como um amontoado de células, as quais retratam a doença quando não funcionam bem. Mas podemos perceber, utilizando o modelo da escada ou estágios, que estes estados de saúde e doença podem se confundir. E nossa percepção está ampliada para este tipo de coisas, porque o momento da humanidade é de descobertas mais profundas em que o indivíduo se encontra consigo mesmo, num processo de auto-descobrimento ( via psicoterapia, por exemplo) e de conscientização da realidade da dimensão extra-física (via vivências diretas ou indiretas com a espiritualidade). Então, diante dessas duas experiências, temos melhores condições para repensar conceitos antes cristalizados pela escassez de conhecimentos.

2 – Desfazendo rótulos e preconceitos:

# Normal x Anormal: Muitas vezes nos equivocamos ao rotularmos esta ou aquela pessoa como doente, incapaz, inválido. Do hábito de segregar minorias ou diferentes surgem os preconceitos raciais, sexuais, culturais, relativos à idade, etc.

Padrões de comportamento ou funcionamento do organismo, dito sadio, são estabelecidos, construídos a partir do desenvolvimento científico, a partir de dados da cultura e do comportamento do próprio observador. Aqui percebemos a fragilidade desses padrões, já que os conceitos de normal e anormal são relativos, do ponto de vista cultural e histórico.

Acho muito interessante um texto do Rubem Alves, chamado ‘Sobre violinos e rabecas’, do livro “Concerto para corpo e alma”. Fala exatamente disso, dos nossos equívocos em relação às diferenças. Fala das deficiências (físicas ou mentais), lembrando que deficiência vem do latim deficiens, deficere, que quer dizer “ter uma falta”, “aquele que não consegue fazer”.

É incrível o alcance do preconceito. Quando nasce uma criança, dizemos “Graças a Deus é perfeita!”. E do contrário “Meu Deus… tem um problema…é doentinha…. será incapaz….limitada…imperfeita.” Nossa arrogância nos faz selar o destino alheio. Como assim “perfeito!” ou “imperfeito!” ? Quem aqui é perfeito, sem limitações ou iguais uns aos outros? E nossas limitações? E nossas diferenças? É claro que existe o sofrimento da dor, da limitação, da incapacidade mais proeminente. Mas a dor terrível mesmo é a provocada pelo olhar das pessoas: “Você é diferente!”. Igualdade é coisa que todos desejam.

Desde pequenos “aprendemos” a distorce o olhar. As crianças querem ser iguais. Daí a importância de ter o brinquedo que todos têm. A menina que não tinha a barbie era deficiente, estava excluída das conversas. O menino que não tivesse o “bichinho eletrônico” que todos tinham era diferente… e os pais, mesmo sabendo que o brinquedo era uma bobagem, para que o filho não sentisse a dor da exclusão, davam o bichinho! Adolescentes usam tênis da mesma marca, camisetas da mesma grife, fazem todos as mesmas coisas, falam todos as mesmas palavras que só eles entendem. Ai daquele que falar palavras da linguagem dos pais – é um ET!

Desde pequenos aprendemos que o diferente não faz parte do grupo. Mas ser igual é fácil. Basta deixar-se levar pela onda, fazer o que todos fazem. Não precisa tomar decisões. As decisões já estão tomadas. É só seguir a onda. Mas o “diferente”, o “deficiente”, o “doente”, aquele que tem uma limitação maior está sozinho. Não existe nenhuma onda que o leve. Cada movimento é uma batalha. São como os jardins – há alguns que se fazem por atacado. Basta comprar as plantas no Ceasa. As plantas são produzidas em série. São jardins bonitos, feitos com plantas produzidas em série, todas iguais. Mas existem jardins, como pessoas, que nascem das pedras, na solidão.

São algumas horas de caminhada, através da mata que se abre para a pedra esculpida por milênios de água e vento. De repente aparece o jardim: orquídeas, musgos e flores!

As pessoas são assim. Há as produzidas que parecem diferentes, originais, mas são todas iguais. E há aquelas que brotam da rudeza das pedras, com uma beleza que é só sua. Rubem Alves tem um amigo Gramani, amigo rabequista. Rabeca é um violino portador de deficiência. Há muito violino fino sem deficiências que só desafina. Nas mãos de Gramani uma rabeca feita de bambu gigante, deficiente, toca Bach maravilhosamente! Pois assim são as pessoas…

# Juventude X Senilidade: Mais um equívoco. Confunde-se idade avançada com doença. Não podemos desconsiderar a fragilidade do corpo, com o seu envelhecimento, fruto do tempo do corpo vital, mas o bom uso de pouca energia pode resultar em muita saúde, distanciando o idoso daquilo que chamamos enfermidade. Trago aqui um exemplo que ilustra muito bem esta situação – Minha avó perdera 2 filhas ainda jovens, uma delas de forma trágica. Passou muito aperto na vida e nunca deixou de lutar para educar os filhos, como costureira.

Hoje, aos 85 anos é uma pessoa que irradia saúde da melhor forma possível, através de sua alegria, boa vontade e disposição…Quando eu a examino em alguma situação, eu acabo lhe dizendo que “isso é coisa da idade, vó”. E ela  sempre  retruca:   “ velha é a sua avó, menino…eu estou ótima”. E é “cabeça dura”. Acha que tem 20 anos. Outro reclamava de dores nas costas. “O que a sra andou aprontando vó?”. “Eu passei uma cerinha no chão.”. “Vó, a sra não tem mais 20 anos…”. “ Ah, ‘tá bom… é uma dorzinha divertida!”. Apesar da idade e do corpo cansado pelo tempo, ela é a prova viva de que saúde não é necessariamente, o contrário de idade.

Pessoas como a minha avó são o oposto daqueles que olham com tristeza para a folhinha do calendário na parede, a qual vai ficando cada vez mais fina. Pelo contrário, vão destacando cada folha do dia que passa e guardam cuidadosamente. Que lhe importam envelhecer? Terão razão para invejar os mais jovens? Pelas possibilidades que tem os mais jovens? Essas pessoas nos ensinam agradecendo que em vez de possibilidades, elas tem realidades. Do trabalho realizado, do amor compartilhado, e até das dificuldades enfrentadas com trabalho e fé!

Quando vejo essas pessoas, desejo com admiração ser um dia assim também. Mas para quê esperar a escassez da vida física para agir de maneira mais sábia? Esse é o questionamento que Dráuzio Varella faz em seu livro “Por um fio”. Ele se espantou ao perceber, em sua experiência como oncologista, que cada vez mais muitos de seus pacientes encontravam novos significados para a existência ao senti-la esvair-se, a ponto de adquirirem mais sabedoria e viverem mais felizes que antes. Daí a sua reflexão: “Será que se esforçarmos não conseguimos aprender a pensar e agir como eles enquanto temos saúde?”.

# Terapeuta X Paciente: Muitas vezes nós, profissionais da área de saúde, temos à nossa disposição, recursos para cuidarmos de nossa saúde, os quais ficam esquecidos, de lado… Na realidade temos um arsenal de recursos que se não for bem aproveitado, acaba nos gerando adoecimento – como uma água parada!

O espírito Inácio Ferreira, no livro “Na Próxima Dimensão”, comente sobre as conseqüências do desperdício de oportunidades, nos auxiliando a derrubar nossas máscaras de pseudo-poder que muitas vezes utilizamos ao ocuparmos este lugar de “cuidadores da saúde”. A partir de sua experiência no Hospital existente no plano espiritual, repleto de espíritas, próximo ao Sanatório Espírita de Uberaba, ele fala que não sabe porque tantas pessoas ao se tornarem espíritas, julgam-se privilegiadas. A doutrina nos torna conscientes de nossas enfermidades, porém a tarefa da auto-cura ainda nos pertence, pois a simples condição de adepto do Espiritismo não isenta ninguém de suas provas.

O mesmo acontece com os terapeutas. Inácio exemplifica com a sua própria história como médico no plano físico – ele conta que pensou que chegaria no plano espiritual com duas asinhas e que na realidade chegou se arrastando e ainda não tinha se colocado de pé.

Muitas vezes me perguntei porque nos teria sido dada a oportunidade de cuidar da saúde de outras pessoas, de sermos médicos, terapeutas, se estamos todos, de certa forma, doentes? Não seríamos cegos conduzindo cegos? A resposta a essa pergunta talvez possa ser encontrada em Mateus, Cap IX, vv 10 a 12:

“Estando Jesus à mesa em casa desse homem (Mateus), vieram aí ter muitos publicanos

e  gente de má vida, que se puseram à mesa com Jesus e seus discípulos; o que   fez  com

que os fariseus, notando-o, dissessem aos discípulos: Como é que  o  vosso  mestre  come

com publicanos e pessoas de má vida? Tendo-os ouvido, disse-lhes Jesus: Não são os que

gozam de saúde que precisam de médicos.”(Mateus, Cap IX, vv 10.)

Assim podemos compreender porque temos a oportunidade de sermos terapeutas, mesmo doentes. Jesus se acercava, principalmente, destas pessoas porque eram  o que mais necessitavam. As oportunidades são dadas àqueles que são necessitados. Então somos terapeutas, não para curarmos alguém ou porque somos escolhidos, mas para nos curarmos.

Alguns mentores da Associação já jogaram luz nessa questão ao afirmarem que a diferença de posições, entre nós (do outro lado da mesa) e os nossos pacientes, existe por uma questão de boa vontade de nossa parte, pois nossas faltas pretéritas – geradoras de adoecimento – são muito parecidas com as deles. Eis então, mais uma vez, a relatividade daquilo que chamamos pacientes e terapeutas, doença e saúde.

Lembro-me agora do bem que nos faz, a convivência com um paciente meu, morador do HEAL. Por razões éticas vou chamá-lo aqui de ‘Titio’, pois é assim que ele muitas vezes nos chama: Titio. Ele tem uma gravíssima doença psiquiátrica (esquizofrenia hebefrênica), com a qual a pessoa fica muito regredida, pueril e desorganizada. Considerando o modelo da escada, de J. Gleber, dos níveis de saúde, a hebefrenia estaria nos primeiros degraus. Mas a presença do Titio em nossas vidas, no trabalho, dão um colorido diferenciado. Podemos dizer que é uma benção dupla. Primeiro, porque nos mostra o quanto podemos nos adoecer ao nos afastarmos, voluntariamente, de um caminho que nos asseguraria paz e saúde (temos conhecimento, via captação mediúnica do seu grave passado). Por outro lado, o seu sorriso imenso e seu jeito de criança nos re-posiciona naturalmente, despertando em nós, sentimentos tão bons e cuidados verdadeiramente maternais! Fico impressionado de ver como uma pessoa tão adoecida produz tanto amor à sua volta. Parece contraditório, mas na realidade é uma grande prova da Misericórdia Divina!

III – Recursos para a Subida (Mudando de estágios…)

“…o espírito encarnado, a fim de alcançar os altos objetivos da vida, precisa reconhecer sua condição de aprendiz…a doença e a saúde do corpo são condições educativas de imenso valor para os que saibam aproveitar o ensejo de elevação em sua essência legítima…é imprescindível muito cuidado para que as posições transitórias não paralisem os vôos da alma. Guarda a retidão de consciência e atira-te ao trabalho edificante; então, a teus olhos, toda situação representará oportunidade de atingir ‘o mais alto’ e ‘o mais além’.” (Emmanuel – “Caminho, Verdade e Vida”, pg 279)

1 – Auto-conhecimento:

“Conhece-te a Ti Mesmo”, é a célebre frase inscrita no portal do templo de Delfos, na antiga Grécia. Sócrates dedicava dias na reflexão desta frase, junto aos seus discípulos tentando lhes mostrar a importância do auto-conhecimento. Séculos depois, Santo Agostinho, no Livro dos Espíritos, retomava essa frase para falar sobre evolução. Nos últimos anos temos J. Gleber, no Livro Medicina da Alma, afirmando que o aprimoramento dos recursos terapêuticos na Terra, nos conduzirá cada vez mais ao conhecimento de nós mesmos e que isso será o principal recurso para reconhecermos o nosso verdadeiro papel na preservação, recuperação ou conquista da saúde. Então, o que vemos é o “conhece-te a ti mesmo” atravessando os tempos e as diversas culturas, nos conduzindo cada vez mais na direção da auto-cura!

2 – Auto-aceitação: dentro do processo de auto-conhecimento poderemos dar mais um passo – a auto-aceitação. Ao nos depararmos com espelhos internos, faremos contato com o que  Jung,em 1945, chamou de  Sombra. O lado sombra seria “a coisa que uma pessoa não tem desejo de ser”, o lado negativo da personalidade, a soma de todas as qualidades desagradáveis que o indivíduo quer esconder, o lado inferior, sem valor, e primitivo da natureza do homem, a “outra pessoa” em um indivíduo, seu próprio lado obscuro. Se nos aceitarmos integralmente, respeitando nosso ritmo pessoal na caminhada evolutiva adotaremos uma posição salutar, evitando a utilização de máscaras de perfeição que só nos travam a caminhada.

É adoecedor pleitear a rápida e instantânea transformação do homem em anjo, num desejo febril de auto-santificação, desrespeitando as manifestações da alma humana. As mudanças são lentas e profundas. Modificações superficiais nestes ou naqueles aspectos do comportamento humano não modificam as raízes mais profundas. O fato de identificarmos e sabermos que as doenças são reflexos de nossos desvios do passado nos ilumina a consciência. Mas este conhecimento muitas vezes se torna motivo para uma auto-tortura, como se fossemos obrigados à mudança imediata. Mudanças baseadas em repressão de impulsos não tem condições de subsistir diante dos desafios cotidianos que exigem de nós maturidade.

“Uma pessoa não se torna iluminada ao imaginar formas luminosas, mas sim ao tornar        consciente a escuridão.” (Carl Gustav Jung)

A sombra é a escuridão no interior do ser, e nesse interior escuro há um tesouro escondido. É necessário o auto-conhecimento para que este tesouro seja descoberto.

3 – Fé e Trabalho: Na primavera de 1942, o cientista J. Gleber se recusou a colaborar na construção da bomba atômica. Por esse motivo foi cremado vivo junto com a sua família, pelos nazistas.

Possivelmente naquele momento tomou consciência da relatividade do que se convencionou chamar doença e saúde. Abrira mão da plenitude da saúde – a própria vida – evitando que milhares de pessoas fossem exterminadas pelo nazismo.

Joseph até hoje afirma que se alegra por haver tomado aquela decisão, agindo de acordo com a sua crença em valores eternos. Teve paz na consciência com a certeza do dever cumprido.

Estes valores guardados em nossas memórias, estejamos encarnados ou não, sempre serão traduzidos em saúde.

Retomo agora a história da minha avó que quando questionada sobre como conduziu a vida após ter sofridos as grandes perdas na vida, me respondera que a sua fé e o seu trabalho, a certeza do dever cumprido sempre lhe deram forças para seguir em frente.

4 – Pensar e Sentir: A gratidão que sinto pelo Chico Xavier existe, em parte, porque com a sua própria vida ele nos ensinou sobre importantes recursos para subirmos alguns degraus da escada da saúde. Ele tinha no seu entorno vários elementos que compõe um estado doentio, sob vários aspectos -havia escassez de saúde física, de recursos financeiros, de estrutura familiar, de escolaridade. Ele então provou que é possível se deslocar verticalmente através do agir, do pensar e do sentir.

Para compreendermos o mecanismo desses recursos é só lembrar da existência do perispírito e dos seus corpos sutis (conhecimento bastante difundido nas culturas orientais mais antigas, confirmado na obra de André Luiz).

Quando estudamos o corpo mental e o corpo astral, envolvidos respectivamente com os pensamentos e os sentimentos, percebemos que o ser humano movimenta uma grande quantidade de energia nestes corpos mais sutis. Dessa forma nossas idéias, pensamentos, emoções e sentimento são irradiados, se espalham em torno de nós, ficam gravitando no nosso entorno e impregnam o nosso meio e a nós mesmos. Então, mesmo doentes, com dores, limitações, podemos expressar saúde, pois todo pensamento e emoção de natureza elevada representam forças que podem nos vitalizar, influenciar as células do perispírito e do corpo físico, amenizar nossas enfermidades e quem sabe, nos curar. Possivelmente isso tudo se dá através dos Bióforos.

No livro “Evolução em Dois Mundos”, André Luiz  explica como isso se processa:

“…cabendo, pois, ao homem responsável reconhecer a hereditariedade relativa mas compulsória lhe talhará o corpo físico de que necessita em determinada encarnação, não lhe sendo possível alterar o plano de serviço que merecem ou de que foi incumbido, segundo as suas aquisições e necessidades, mas pode , pela própria conduta feliz ou infeliz, acentuar ou esbater a coloração dos programas que lhe indicam a rota através dos bióforos ou unidades de força psicossomática que atuam no citoplasma, projetando sobre as células e, conseqüentemente, sobre o corpo os estados da mente, que estará enobrecendo ou agravando a própria situação, de acordo com a sua escolha do bem ou do mal.” (André Luiz – “Evolução em Dois Mundos”)

Lembramos aqui da possibilidade de agravamento de nossa situação no processo de irradiação negativa quando encontramos outras mentes que nos ajustam em processo de sintonia, gerando processos obsessivos.

5 –  Escolha de atitude diante da compreensão do  “Porque” e “Para que” adoecemos: Quando nos são reveladas as respostas à essas perguntas, somos convidados a assumir uma postura de resignação e sabedoria diante das dificuldades, sofrimentos e enfermidades.

E se assim o fazemos, temos em mãos um valioso recurso para mudarmos de estágio de saúde. Sábio seria se aceitássemos essas dificuldades como o que verdadeiramente são:

– 1º Oportunidades de reequilíbrio do corpo espiritual através da drenagem de núcleos adoecidos (eis aqui porque adoecemos – faltas pretéritas, em relação às leis universais, lesionam nosso perispírito que no processo reencarnatório impressionam o DNA do corpo físico que utilizaremos).

– 2º Oportunidades de revisão de posicionamentos diante da vida (aqui temos a síntese do para que adoecemos – para que possamos transformar nossas existências. As dificuldades são cercas colocadas pela Providência Divina em torno de nós, impedindo maiores quedas que gerariam séculos de dores e lutas nas expiações futuras.

Entretanto temos que nos lembrar de que vivermos as dificuldades e compreendermos as suas causas e para qual direção elas nos apontam  não é sinônimo de elevação espiritual. A subida de mais um degrau na escada da saúde dependerá da postura adotada pela criatura diante da dificuldade, dependerá da utilização daquilo que Viktor Frankl chamou de “a última liberdade humana”:

“Uma das formas de descobrirmos o sentido da vida seria através da atitude que tomamos em relação ao sofrimento. Podemos encontrar sentido na vida quando temos a oportunidade de dar testemunho do potencial especificamente humano no que ele tem de mais elevado, e que consiste em transformar uma tragédia pessoal num triunfo, em converter nosso sofrimento numa conquista humana (…) A última liberdade humana é a capacidade de escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado conjunto de circunstâncias. Capacidade de erguer-se acima de todo o sofrimento”. (Viktor Frankl – “Em Busca de Sentido”)

Em 1945, o psiquiatra Viktor Frankl escreveu, em 9 dias, o livro “Em Busca de Sentido”, fruto de sua experiência durante longo tempo em campos de concentração.

Ele escreveu o livro com a intenção de transmitir às pessoas, através do seu próprio exemplo concreto, que a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis. A maior parte de sua família morreu nos campos de concentração. Ele perdeu tudo o que era seu, todos os seus valores, sofreu de fome, frio e da brutalidade, esperando a cada momento a sua exterminação final. Mesmo assim conseguiu encarar a vida como algo que valia a pena preservar.

Podemos aprender muito com este fragmento auto-biográfico que este livro representa. Frankl percebe o que o ser humano faz quando subitamente compreende que não tem nada a perder senão sua existência. Observa o surgimento de estratégia de preservação do que resta de vida, apesar das chances de sobreviver serem pequenas. Fome, medo, humilhação e profunda raiva das injustiças dominadas graças às imagens sempre presentes de pessoas amadas, graças ao sentimento religioso, a um amargo senso de humor e até mesmo graças às visões curativas de belezas naturais – uma árvore ou um pôr-do-sol. Frankl tem uma visão surpreendentemente positiva da capacidade humana de transcender suas situações de dor e sofrimento, doenças, dificuldades, a partir da postura assumida por ele e por muitos dos seus companheiros. Ele conta que a única coisa que sobra é “a última liberdade humana”.

Então, quando não somos capazes de mudar uma situação – podemos como exemplo pensar numa doença incurável, como um câncer que não se pode mais operar, somos desafiados a mudar a nós próprios.

Portanto as dores atuam com bússolas que nos indicam o caminho a ser percorrido para a reconstrução daquilo que no passado nós contribuímos para a desarmonização.

Lembramos que este tipo de dor não está nos planos originais da Consciência Divina em relação aos seus filhos. Resulta unicamente da colheita obrigatória daquilo que plantamos. A dor tem o papel de despertar alma para a necessidade do aperfeiçoamento, mas só o Amor poderá elevar a criatura aos planos elevados da vida, onde haverá a reconexão tão esperada com o Pai!

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