Os cuidadores estão sob tensão. Quais são as evidências atualizadas que a gente tem em 2026? Existe uma pandemia silenciosa. O que isso quer dizer? Depois da COVID, no cenário pós-2024, com vários cortes de gastos e vários aprofundamentos do sofrimento dos profissionais de saúde, cronificou-se o estresse crônico nos nossos profissionais, mantendo momentos de burnout constante. Não foi permitido momento de descanso. Está piorando a qualidade do trabalho, está piorando a qualidade de saúde, estão piorando também os salários dos nossos profissionais, e eles têm que trabalhar várias horas por semana, geralmente mais do que é permitido por lei. São cargas de trabalho que chegam por volta de 60 horas por semana, principalmente no campo da enfermagem, que é o que mais tem sofrido com essa situação.
Então, nós temos uma dificuldade: existe um binômio entre cuidado e valorização. De um lado, a sociedade exige que nós, profissionais, tenhamos um cuidado irrestrito, sem parar, para todas as pessoas. Por outro lado, os profissionais de saúde não são valorizados nesse cuidado. Então, tem essa piora do estresse crônico. Existe uma interdependência entre a saúde psíquica do profissional e a sua estabilidade financeira. Ou seja, é exigido muito trabalho, mas é pouco valorizado e dado pouco retorno, tanto financeiro quanto de valorização profissional mesmo para eles.
Eu vou fazer um recorte local sobre a realidade de Belo Horizonte. Não vou falar do Brasil inteiro, não vou falar do mundo inteiro. Vou fazer um recorte local, justamente porque a gente está em Belo Horizonte, para usar isso aqui como uma metonímia para o restante, para ver como está a situação epidemiológica e econômica dos servidores públicos de Belo Horizonte. Por que eu escolhi servidores públicos? Porque a gente tem as informações públicas. Então, vocês podem conferir todas as informações que eu colocar aqui; eu vou colocar as referências, e vocês podem conferir essas informações.
O nosso objetivo é apresentar dados científicos e financeiros para fundamentar estratégias de preservação do trabalhador de saúde.
Como está a questão da saúde, do burnout, do estresse crônico? Em 2025 e 2026, a gente estima que um em cada três profissionais brasileiros apresenta sintomas clínicos de exaustão severa, o que a gente classificaria como burnout. Aqui se incluem outros trabalhadores também, mas também os profissionais de saúde. Existe uma cronificação do estresse pós-transição pandêmica e a persistência de ambiente de alta pressão. Ou seja, manteve-se a exigência de trabalho daqueles profissionais na mesma intensidade que foi exigida durante a pandemia.
É bom a gente lembrar que, durante a pandemia, nós tivemos vários problemas com os nossos trabalhadores de saúde. Não tivemos instrumentos adequados para fazer o trabalho. Tivemos menor quantidade de profissionais para conseguir toda aquela carga de atendimento que a gente tinha que dar conta. Nossos profissionais adoeciam por falta de infraestrutura adequada para eles trabalharem. E isso continuou. Na verdade, está agravando, pelo que a gente tem visto nos movimentos da nossa gestão de saúde aqui de Belo Horizonte.
Quais são os gatilhos predominantes? Nós vemos, em alguns profissionais de saúde, jornadas de até 60 horas, principalmente no pessoal da enfermagem, que são os que mais sofrem com isso. Também vemos uma insegurança financeira e perda real do poder de compra. Em 2024, o Brasil registrou 472 mil afastamentos pelo INSS por transtornos mentais, 68% maior do que em 2023. Tudo isso ocorre por causa de uma diminuição da valorização do profissional, uma diminuição do pagamento salarial, uma diminuição do poder de compra do profissional. Ele é, por isso, obrigado a trabalhar em vários trabalhos ao mesmo tempo e se desgasta com isso. Tudo isso veio piorando e tem piorado cada vez mais.
Vamos falar sobre o espectro de adoecimento: burnout, ansiedade e suicídio. Primeiro, só para a gente classificar burnout: no CID-11, ele é QD85. Ele é definido pela OMS não como doença individual, mas como fenômeno ocupacional da tríade de Maslach, caracterizada como acidente de trabalho. Então, primeiro, a gente tem a exaustão emocional, um esgotamento total de recursos energéticos; despersonalização, um cinismo, distanciamento e frieza no trato com pacientes e colegas; e uma reduzida realização profissional, sentimento de incompetência e falta de propósito.
A gente viu que, em 2025, observou-se alta correlação entre ambiente de alta pressão, como TI e urgência, e o desenvolvimento de transtorno de ansiedade generalizada, depressão e, porventura, burnout. Também o burnout tem crescido significativamente em profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, todos têm crescido alarmantemente.
E nós vemos aqui um alerta vermelho, que é mais significativo ainda, que é a questão do suicídio em profissionais de saúde. Taxas entre médicos e enfermeiros são agravadas pelo estigma do cuidador e o mito da invencibilidade. O mito da invencibilidade nós vamos explorar mais para frente, mas é uma cultura que foi criada nos nossos profissionais de saúde de que nós não podemos adoecer e que temos de estar sempre dispostos a trabalhar, mesmo sacrificando a nós mesmos.
Um exemplo muito fácil de a gente perceber isso é quando nós temos visto, recentemente, políticos entrando nas UPAs e questionando por que o médico está no momento de descanso dele, por que o enfermeiro está no momento de descanso dele. Gente, enfermeiro e médico são seres humanos. Se eles não descansarem, eles vão cometer erros, e erros que vão matar pessoas. Então, é por lei definido que os profissionais de saúde têm que ter descanso. O que está inadequado ali é o político, o gestor de saúde, colocar apenas um profissional para ficar num plantão inteiro. Isso não é adequado. Isso vai causar erros, vai aumentar os custos, vai aumentar o burnout nos profissionais e também nos pacientes. Vai diminuir a qualidade de atendimento.
Se o médico, o enfermeiro, o psicólogo têm que ter descanso por lei, o que tem que ser feito é aumentar a quantidade de profissionais, aumentar o capital investido, aumentar as formas de trabalho. Se nós temos poucos profissionais, nós aumentamos o custo e diminuímos a qualidade do atendimento. Então, o médico, o enfermeiro não são invencíveis. Mas isso não é só a população que vê. Nossa cultura na academia é criada para isso também: que nós não podemos adoecer. Nós ficamos sentindo que, quando adoecemos, estamos deixando alguém a desejar, estamos fazendo mal para a instituição, estamos fazendo mal para o nosso paciente. “Ah, se eu adoecer amanhã, e o meu paciente, que precisa da receita para continuar o acompanhamento dele?” Nós somos criados para sentir essa culpa, responsabilizando-nos a mais pela saúde dos outros. Isso é uma cultura que tem que ser quebrada, tanto do lado dos profissionais de saúde quanto do lado da população também.
E esse estigma do cuidador é justamente isso: nós temos que cuidar, nós não temos que ser cuidados. Então, é nos ensinado também, por cultura acadêmica, que a gente ser cuidado mostra fraqueza, mostra que a gente não é capaz de vencer as adversidades, mostra que a gente não consegue lidar com um ambiente, com uma situação de urgência, por exemplo. Mas isso é um estigma, é uma ilusão, é o medo que nos é criado na academia.
Existe um fator crítico: o conhecimento farmacológico e o fácil acesso a meios letais aumentam a letalidade das tentativas. Isso é um problema, porque, se temos profissionais que estão com burnout, temos profissionais que estão piorando nos sintomas depressivos, nos sintomas de ansiedade, consequentemente também vai aumentar o sintoma de suicídio.
Eu trouxe um estudo do Cremesp mostrando as causas de morte entre causas externas de profissionais de saúde, mais especificamente médicos. Primeiro, nós vemos os acidentes automobilísticos, que estão em linha com o restante da população. Isso aqui não tem nada demais. Muitos de nós morremos por acidentes automobilísticos. O que assusta é que a segunda maior causa de morte entre profissionais de saúde, incluindo médicos, é suicídio. 21% das mulheres profissionais de saúde estão morrendo de suicídio. 18% dos homens estão morrendo de suicídio. E, se você for olhar, a terceira causa é agressão.
E não é só agressão externa. Nós temos que lembrar que está aumentando a agressão contra profissionais de saúde, pois é responsabilizado o profissional de saúde por não ter estruturas adequadas de atendimento para a população. Chega uma mãe lá no centro de saúde e pergunta: “Por que não tem fonoaudiólogo aqui no centro de saúde para o meu filho autista?”, e acha que o problema de não ter fonoaudiólogo é do profissional que não quer encaminhar, entre aspas. Mas, na verdade, o problema é falta de investimento político naquela situação. É falta de investimento no centro de saúde, é falta de contratação de profissional, é desvalorização profissional.
Vocês vão ver por que não tem contratado: porque é pago muito mal. Os nossos profissionais de saúde no sistema público recebem muito abaixo da inflação. Eles não conseguem manter o poder de compra. Se eles trabalharem no setor público, eles perdem capacidade de sustentar a sua própria família. Então, como não são valorizados, naturalmente eles não vão, e preferem ir para o sistema privado. E o sistema privado, como nós sabemos, também não está lá às mil maravilhas.
Então, as agressões contra os profissionais de saúde são uma visão ilusória que a sociedade tem tido: de que a falta de fonoaudiólogo, de psicólogo, de médico, de enfermeiro, é uma causa da gestão local do centro de saúde. Mas não tem como o centro de saúde passar uma medicação, um tratamento, se não tem financiamento para aquilo. E aí a população mal informada tem agredido mais profissionais de saúde por isso.
“Ah, porque eu esperei quatro horas para ser atendido na UPA.” E eu concordo. Está errado esperar quatro horas para ser atendido na UPA. Está errado mesmo. Tinha que ser atendido mais rápido. Por que não é atendido mais rápido? Porque não são contratados profissionais para trabalhar. É só por isso. Não tem como um médico cuidar de cem fichas em um plantão. Vocês entendem o que é uma pessoa fazer aconselhamento de saúde para cem pessoas em um plantão? Não tem como. Na verdade, é possível, sim, com o profissional se sacrificando, ele ficando extremamente adoecido e diminuindo a qualidade do atendimento. Aí sim a gente consegue. Mas esse é o objetivo que os nossos gestores de saúde estão querendo.
Então, vemos aqui, pelo Cremesp, que têm aumentado as taxas de suicídio entre profissionais de saúde, justamente porque, cobrando-se para ter que fazer um atendimento adequado aos pacientes, eles estão se sentindo culpados por não conseguir fazer aquele atendimento adequado. Os psicólogos não conseguem fazer um atendimento em trinta minutos no centro de saúde e ficam preocupados com aquilo. Os médicos têm que ser obrigados a atender em quatorze minutos um paciente no centro de saúde. Os enfermeiros têm que fazer um atendimento em menos de vinte. Não existe humanamente possibilidade de isso ser saudável. E isso se reflete no adoecimento dos profissionais, nos burnouts, nos atestados e por aí vai.
Vamos ver mais um detalhe muito significativo disso também. Quais são os traços dos nossos profissionais? Como eu disse, eu vou focar em enfermeiro, psicólogo e médico, mas isso se traduz para os outros. Vamos falar dos médicos primeiro. Há uma alta pressão por desempenho, erro zero e medo de judicialização. Hoje, nós praticamos principalmente uma medicina defensiva, uma medicina judiciária. Ou seja, no prontuário a gente mais gasta tempo fazendo burocracia do que realmente atendendo os pacientes.
Isso é causado por esse erro zero. Não é permitido que o médico erre. Tudo bem, eu concordo. Se o médico errar, realmente existe um grave risco para o paciente que está sendo atendido. Mas o médico está errando porque ele está cansado, porque não é permitido ele descansar, porque ele tem que fazer três trabalhos diferentes para sustentar a própria família. E é importante a gente lembrar disso: os nossos profissionais de saúde são trabalhadores. Eles não são seres evoluídos, sensacionais, superinteligentes, melhores que todo mundo. São só trabalhadores comuns que têm que ir lá trabalhar, ganhar o dinheirinho deles e pagar a ração do gato ou pagar o arroz da filha.
Então, com essa questão do erro zero, é exigido cada vez mais dos profissionais fazer mais do que eles são capazes. Hoje estamos vendo, no grupo dos médicos da Prefeitura de Belo Horizonte, que está tendo uma demissão em massa de contratados do centro de saúde com a desculpa de diminuição de custos. Pois eu digo: o que isso vai ocasionar? Vai diminuir a quantidade de profissionais, vai diminuir a quantidade de oferta de saúde como produto para os trabalhadores e também para os pacientes. Os médicos vão ter que ser obrigados a trabalhar mais, atender mais, diminuir seu tempo de consulta. Os enfermeiros também, os psicólogos também. Vai cair a qualidade do atendimento, vai cair a qualidade que o paciente merece de atendimento.
Diminuir custos na área de saúde e na área de educação aumenta o gasto, piora a qualidade do serviço. Então, não existe esse raciocínio de diminuir custos em área de saúde, justamente porque é exigido que a gente tenha erro zero, mas também é exigido que a gente não adoeça, que a gente não passe mal, que a gente tenha tempo para refletir, para raciocinar sobre o caso do paciente. Como o médico vai fazer isso em quatorze minutos de consulta? E eu pergunto para o pessoal que está assistindo: vocês acham que a sua saúde merece apenas quatorze minutos de consulta de um profissional? Você acha que, em quatorze minutos, é possível a gente fazer todo o atendimento completo para aquele paciente, sendo que é sugerido em vários estudos da medicina de família no mínimo uma hora de consulta? Então, é uma coisa para a gente refletir.
Continuando nos médicos, a gente percebe que existe um burnout presente em até 60% dos residentes e acadêmicos. Gente, os nossos profissionais de saúde já estão se formando adoecidos. Eles não estão adoecendo agora. Os nossos estudantes estão adoecidos e formando-se adoecidos. Tem como esses profissionais terem qualidade de atendimento adequada, se na academia eles já estão adoecidos? Então, nós temos que ver a nossa forma de produção de saúde, temos que ver a nossa forma de reprodução de saúde. Será que essa busca incessante por questões de lucro, de falta de gastos, é realmente o caminho que a gente tem que seguir? Além disso, no caso dos médicos, existe uma maior resistência em buscar ajuda devido ao estigma profissional.
Sobre a enfermagem, existe o subdimensionamento de equipes e exposição recorrente à violência ocupacional. Nós sabemos que os enfermeiros recorrentemente recebem xingamentos, agressão verbal. Isso não é esporadicamente; é todo dia. E existe um subdimensionamento crônico da equipe de enfermagem em todos os locais. Mas aqui não estou falando só de Belo Horizonte, não; do mundo inteiro. Se você for no Irã, se você for na China, se for nos Estados Unidos, se for no Japão, se for na Noruega, todos relatam, e todos os conselhos profissionais de enfermagem relatam, que os trabalhadores de enfermagem sempre são exigidos a trabalhar a mais do que eles são capazes. Então, sempre há esse subdimensionamento crônico no nosso sistema de saúde.
Aí existe uma tensão entre valorização salarial necessária e a instabilidade gerada por cortes e fechamento de leitos. Geralmente, os primeiros a serem cortados são os técnicos de enfermagem e os enfermeiros, e são eles que sofrem para redimensionar a equipe. Não tem como um técnico de enfermagem dar uma atenção adequada a dez pacientes. Não tem como. Na UTI, por exemplo, não tem como um técnico cuidar de dois ou três pacientes. Tem que ser dedicação exclusiva. Mas os nossos gestores de saúde não pensam assim, porque eles não entendem que, quanto mais profissionais nós temos trabalhando, quanto mais profissionais nós valorizamos salarialmente, mais eles produzem. Quanto mais nós investimos na saúde, damos mais profissionais, mais mão de obra, mais eles produzem e menores são os gastos. Porque, se temos uma equipe bem repleta, que pode dar todo o atendimento completo ao paciente, nós diminuímos as consequências de saúde para eles, diminuímos eventos trágicos que podem acontecer na vida do paciente. Mas, infelizmente, a gente está vendo justamente o contrário, e a equipe de enfermagem é a que mais sofre com esse esquema.
E os psicólogos? Existe um desgaste emocional de escuta contínua sem supervisão clínica adequada. No centro de saúde, a maioria dos psicólogos não tem supervisão. Então, eles atendem sem supervisão; geralmente são recém-formados. Também existem desafios de infraestrutura, com salas inadequadas, filas de espera que sobrecarregam o profissional psicólogo. E existe uma ideia do ideal do NASF e a realidade da atenção básica. A maioria dos psicólogos no centro de saúde está em desvio de função. Eles não estão atuando como deveriam atuar com o núcleo de assistência à família, como suporte, com apoio. Eles estão fazendo atendimentos clínicos recorrentes e com tempo inadequado, geralmente de trinta minutos.
Aqui também eu pergunto para vocês: vocês acham que faz sentido você ir ao psicólogo e todas as suas questões conseguirem ser resolvidas em apenas trinta minutos? E é trinta minutos por mês, porque não temos psicólogos. Conversei com alguns psicólogos antes dessa palestra, e eles falaram assim: “Olha, o ideal seria a gente ter um psicólogo por equipe de saúde, e, mesmo assim, ainda estaria inadequado o atendimento, porque ainda assim estaria subdimensionado, tanto que a gente precisa de psicólogo no centro de saúde.” E atualmente a gente tem um, no máximo dois psicólogos. É impossível um ou dois psicólogos darem conta de uma equipe de pacientes, de uma área de dez mil habitantes. Não existe racionalidade nessa ideia. Então, nós temos que melhorar nossa visão para a saúde também.
Eu trouxe um dado muito significativo, que é a questão da valorização salarial. Entre 2010 e 2026, o IPCA, que é o índice de inflação, acumulou por volta de 135%. No mesmo período, os reajustes lineares para servidores da PBH geraram uma perda, uma defasagem de aproximadamente 12% a 15%. Ou seja, ao trabalhar no setor público, você perde 15% do seu poder de compra. Você diminui a capacidade de coisas que você pode comprar para a sua família, você diminui a qualidade de vida que você pode dar para a sua família. Por isso, os profissionais não se mantêm lá no trabalho; eles estão perdendo dinheiro trabalhando como servidor público.
E o problema é que o serviço público é a base financeira para que os servidores privados deem seu valor de consulta. Então, se o servidor público é pago muito baixo, o privado também é pago muito baixo. E isso vai piorando, porque, se eu trabalho no setor público e tenho uma defasagem de 15%, o que eu tenho que fazer para manter a mesma qualidade de vida? Eu tenho que trabalhar mais, tenho que trabalhar em outro local, tenho que ter dois cargos ou três cargos, como a gente vê, o que é o mais comum, principalmente na enfermagem. Ou seja, para o trabalhador profissional de saúde conseguir ter uma qualidade de vida aceitável para a sua família, ele tem que sacrificar mais tempo do seu trabalho para conseguir dar a mesma qualidade de vida que ele acha que a família dele merece.
Isso aqui, gente, é qualidade de vida mínima. Eu não estou falando aqui de carro de última geração, não estou falando de viajar cinco vezes por ano. Estou falando do mínimo para você não passar fome. Isso aqui é o mínimo. E os profissionais de saúde não estão recebendo o mínimo para eles não passarem fome. Para eles não passarem fome, eles têm que trabalhar em vários locais. E aí entra aquela questão: para eu não passar fome, eu tenho que trabalhar em vários locais. Eu trabalho em mais locais, eu fico mais doente, e, ficando mais doente, eu não participo mais da minha família. Então, nós temos que pensar sobre isso também.
Eu fiz um cálculo dividindo o salário líquido pela carga horária do tempo assistencial dos nossos trabalhadores de saúde, e é assustador o valor que a gente recebe pelo atendimento no serviço público. Os médicos, que são exigidos a atender de vinte em vinte minutos — alguns locais exigem de quinze, mas eu quis ser otimista e deixar vinte minutos —, estão recebendo por consulta R$ 19,84. Por consulta, os médicos da PBH, não sei de outros locais, estou falando exclusivamente da PBH, estão ganhando R$ 19 por consulta. Como você vai trabalhar feliz? Como você vai trabalhar com vontade de fazer as coisas, com vontade de ajudar? Porque você está ganhando isso aqui, e está pensando: isso aqui não paga o arroz da minha filha, não paga a escola da minha filha, eu tenho que trabalhar mais. R$ 19 é absurdo.
E qual é o problema disso? Esse valor é usado pelos planos de saúde para remuneração do setor privado. Então, se o setor privado pagar R$ 80 por consulta, como a gente vê, por exemplo, a Unimed pagando isso, é claro que os profissionais vão trabalhar lá. Mas isso não quer dizer que eles estão ganhando mais, não. Só quer dizer que eles estão ganhando um pouquinho a mais. Ou seja, para a gente melhorar essa estrutura toda, nós temos que melhorar o serviço de saúde também, contratar mais profissionais, aumentar o salário deles.
A gente viu aqui os enfermeiros, por exemplo: eles ganham por volta de R$ 23 por consulta. O Cofen fez uma nota falando que os enfermeiros têm que ter um tempo de atendimento mínimo de trinta minutos. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo, porque, de um lado, protege o profissional, falando que eu não posso atender menos que isso. Por outro lado, os gestores de saúde falam assim: “Beleza, então você vai ser obrigado a atender de trinta em trinta minutos.” Se você quiser fazer um atendimento de maior qualidade para o paciente, como enfermeiro, você fica assustado, porque eu tenho que seguir aqueles trinta minutos, senão eu fico atrasado e tem quinze pessoas esperando para eu atender, e vai começar todo o processo de agressão física, agressão moral e tudo mais. E os enfermeiros estão aí ganhando R$ 23.
E os psicólogos, mais ou menos isso também: R$ 23 por consulta. Os psicólogos, que são das áreas que mais estão necessitadas de atendimento no centro de saúde, estão ganhando R$ 23 por consulta. Isso, gente, eu sendo bonzinho, colocando um tempo de consulta de trinta minutos, sendo que o ideal seria quarenta minutos ou uma hora de consulta, mas infelizmente também são exigidos trinta minutos de consulta. E aí o psicólogo não consegue fazer adequadamente o trabalho dele com esse tempo, não tem como. Então, o profissional tem que fazer milagre com o pouco tempo que ele tem, tem que atender mais pessoas do que ele é capaz. Isso piora a qualidade de vida, piora a saúde, piora a depressão, a ansiedade, o burnout e por aí vai.
Só para ficar visual, eu coloquei um gráfico mostrando que a enfermagem teve, sim, um aumento do ganho do IPCA por causa da lei do piso da enfermagem. Só que a lei do piso da enfermagem é um pouquinho complicada, porque, primeiro, para você ganhar o piso da enfermagem, você tem que trabalhar 44 horas por semana. Ou seja, você praticamente tem que ser exclusivo de um local. E outra coisa: se você for ler a lei, ela não dá garantia de aumento constante com a inflação. Ou seja, daqui a dez anos esse piso de enfermagem não serve para nada. Então, não ajudou tanto. Ajudou pontualmente, realmente, mas já está indo para um espaço de defasagem salarial.
Aí o enfermeiro, que é obrigado a trabalhar 44 horas para ganhar um piso que é uns R$ 4 mil — e deixar claro: R$ 4 mil não dá qualidade de vida para ninguém; não dá. A pessoa não consegue ter uma qualidade de vida boa só com R$ 4 mil. Ela é obrigada a trabalhar em outro local. Então, o profissional que é obrigado a trabalhar 44 horas ainda tem que fazer plantão em outro local para manter a qualidade de vida mínima. Eu não estou falando de conforto; estou falando de mínimo para a pessoa não passar fome. Infelizmente, os que mais sofrem aqui são os psicólogos, que estão com a maior defasagem.
Eu tirei uma imagem de um economista que falou de um departamento chamado Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o Dieese. O Dieese faz um cálculo para as capitais brasileiras, falando assim: qual seria o mínimo salarial, como se fosse um salário mínimo, para que a pessoa tivesse um mínimo de conforto, para que ela não passasse fome, não ficasse miserável? O nosso salário mínimo no Brasil atualmente é por volta de R$ 1.580 e está aumentando um pouquinho. Mas, de acordo com o Dieese, para a pessoa não ser miserável, nós, em Belo Horizonte, deveríamos ganhar no mínimo por volta de R$ 6.800. Isso, gente, é para você ter o mínimo. É para você ter roupa, é para você comer, é para você beber, para você trabalhar, para você ter descanso, ter lazer. Mas isso aqui é o mínimo. Você não tem conforto aqui, não.
E isso aqui é para uma pessoa só. Se a gente multiplicar por quatro, para uma família de quatro pessoas, para uma família ter uma qualidade de vida minimamente aceitável em Belo Horizonte, ela tem que ganhar no mínimo R$ 23 mil. Isso é para qualquer trabalhador, não só os profissionais de saúde. Se a família, como um todo, ganha esse valor, consegue garantir uma escola adequada para os filhos, os medicamentos, os tratamentos adequados, consegue plano de saúde, consegue um carro, consegue ter uma casa boa. Mas, para você ver o tanto que está defasado, um médico atualmente, trabalhando vinte horas no centro de saúde, ganha por volta de R$ 5.600, bruto. Um psicólogo deve estar ganhando por volta de R$ 4.100, bruto; um enfermeiro, eu fico até triste de falar o valor deles, porque realmente é muito baixo. Técnico de enfermagem, então, ganha muito menos que isso. E aí a gente é obrigado a trabalhar muito mais para ter o mínimo de qualidade de vida. Isso está causando um adoecimento geral na nossa população, do ponto de vista econômico e social.
Agora eu vou falar sobre um ponto de vista mais emocional também, que tem adoecido os nossos profissionais. A infraestrutura como vetor de adoecimento. Vamos dizer que a gente melhora o salário; vamos dizer que todo mundo agora ganha, sei lá, R$ 6 mil ou mais, um pouquinho, para ter um conforto bom. O que adianta ter apenas isso, se a gente tem salas que não têm ventilação adequada? Até pouco tempo atrás, as PPPs que fizeram aqui em Belo Horizonte não tinham ar-condicionado, sendo que está lá na norma regulamentadora de ergonomia que trabalhadores no campo mais intelectual, incluindo psicólogo, enfermeiro e médico, têm que ter climatização na sala, porque isso melhora a produtividade do trabalhador. A gente não tinha ar-condicionado, e, pasmem, ainda não tem nem ventilador em alguns locais.
Então, temos iluminação precária, ausência de mobiliário ergonômico, e isso resulta em uma fadiga crônica. Os nossos profissionais sofrem de fadiga crônica, dores crônicas também, por inadequação do espaço de trabalho e inadequação também do espaço de trabalho para o paciente. O paciente também não recebe adequadamente o tratamento. Faltam insumos, falta insulina, falta losartana, falta um espaço adequado para os psicólogos atenderem, falta medicamento, falta uma cadeira boa para os pacientes deitarem ou se sentarem, e por aí vai.
Existe uma inexistência ou precarização de áreas de repouso para plantonistas e copas dignas, impedindo a descompressão necessária entre atendimentos. Deixar claro: descanso de médico, de enfermeiro, de psicólogo e de outros profissionais de saúde é lei, é obrigatório. Mas só porque é lei não quer dizer que eles vão dar um descanso adequado. Nós vemos descansos com várias camas empilhadas, quando tem. Vemos locais que não têm um espaço adequado para descansar, para comer. Médicos e enfermeiras têm que comer no próprio espaço em que atendem, o que é inadequado, mas é o que eles conseguem fazer. Às vezes, nem têm tempo de comer, justamente por causa da pressão de atendimento. Tudo isso está piorando a qualidade de vida dos nossos profissionais.
Além disso, existe o tecnoestresse. Aqui em Belo Horizonte, a gente conhece o Sisrede, que é o sistema utilizado no sistema público de saúde. Alguns estudos mostraram que, só por causa de problemas, bugs do software que a gente usa para atendimento, cerca de 30% da consulta dos nossos profissionais de saúde é só para resolver problema técnico. Ou seja, além de ser médico, a gente tem que ser TI também; a gente tem que saber mexer em rádio e computador. E, se a gente lembra que eu falei que o mínimo é por volta de vinte minutos de atendimento para médicos, se come 30%, sobram quatorze minutos de atendimento, porque os outros seis minutos são para resolver problema técnico. Então, existe esse tecnoestresse também. Não é só o Sisrede; tem vários outros programas, e a gente vê que há essa dificuldade, porque quem faz esses programas não está lá na ponta atendendo os pacientes. Quem faz esses programas não está lá na ponta falando assim: o que é mais prático, o que é mais intuitivo para o profissional, qual é o segmento da linha de raciocínio? A pessoa que produz isso não entra em contato com os profissionais de saúde que estão lá na ponta para saber o que é melhor para eles. Produzem baseado em ideias, metas e scores, e colocam aquilo naquele programa, o que gera mais problemas ainda. Uma coisa que poderia ser mais fluida está consumindo 30% do nosso atendimento.
Existe essa questão do dano moral, da injúria moral ou lesão moral. Eu vou explorar isso mais, porque isso é extremamente importante. É o impacto psicológico de trabalhar sobre escassez. É uma frustração repetitiva de não poder oferecer o padrão ouro de cuidado. Gera um sentimento de culpa e impotência que precede o burnout. A ideia é assim: o seu filho precisa de fono, precisa de TO. O seu filho autista, nível 3 de suporte, precisa disso. Tem? Não. O que eu vou fazer? O que eu, psicólogo, o que eu, médico, vou fazer? Eu não sou capaz de fazer nada, porque não sou eu que decido se vai ter TO ou fono lá no centro de saúde. Quem decide é o meu gestor, que não está lá na ponta vendo os problemas que a população precisa. E aí o profissional de saúde tem que chegar nessa mãe e falar assim: “Seu filho precisa de TO, mas não tem. O que a gente vai fazer com isso?” Isso gera uma injúria em nós, porque nós temos na nossa consciência moral que a gente tem que dar o nosso melhor para o paciente. O nosso melhor é fornecer para esse paciente autista TO, fono, médico, psicólogo adequados. Mas não tem. E a gente sofre com isso também. Nós, profissionais, sofremos com isso.
Temos também as estruturas físicas vulneráveis, que não protegem o profissional contra violência, que a gente tem visto aumentar muito. Como eu disse, a violência contra os profissionais de saúde não é direcionada adequadamente, porque a raiva que os pacientes sentem não é do profissional, não é do médico que está falando que não tem TO ou fono. O que eles verdadeiramente sentem é raiva do sistema que não está dando suporte para eles. Então, essa raiva teria que ser adequadamente direcionada para os gestores, para os políticos que organizam esse sistema de saúde.
Por fim, é bom a gente falar também que trabalhar é uma necessidade. Ninguém, geralmente, trabalha porque quer. A gente trabalha porque, se a gente não trabalhar, morre de fome. No nosso sistema, a única forma de a gente se alimentar, beber água, ter roupa, é ganhar algum dinheiro. Para ganhar dinheiro, a gente tem que trabalhar. Então, o trabalho é uma necessidade de todos nós, até para a contribuição social da sociedade. E, se o trabalho é uma necessidade, nós temos que deixá-lo o mais aliviado possível para aquele profissional, não só o profissional de saúde, mas todos os profissionais, para que tenham uma qualidade de vida adequada, para que eles possam produzir o que são capazes de produzir e consigam suprir as suas necessidades, trabalhar com amor, trabalhar porque realmente gostam, com qualidade.
O que é injúria moral, então, ou dano moral? Uma lesão moral é você perpetrar, não impedir, testemunhar ou tomar conhecimento de atos que transgridem crenças e expectativas morais profundamente arraigadas. A lesão moral pode se manifestar como sentimentos de culpa, vergonha, raiva, repulsa e por aí vai, sobre outros, sobre o mundo ou sobre si mesmo.
De onde vem essa questão de injúria moral? É um estudo que estava estudando injúria moral em soldados, veteranos de guerra. O que é a injúria moral? O soldado vai para a guerra, vê coisas atrozes acontecendo, vê pessoas morrendo de formas brutais, fica lesado moralmente com aquilo e volta para casa tendo que lidar com aquela situação, porque viveu uma coisa absurda que a gente não ia conceber. Enquanto os soldados vão pontualmente a um local, sofrem essas injúrias e depois voltam para casa, apesar da intensidade, é uma coisa mais aguda. O que essa literatura descobriu é que os profissionais de saúde — e aqui entram todos — sofrem injúrias morais crônicas no nosso dia a dia. Não tão intensas quanto as dos soldados, lógico, mas, apesar da menor intensidade, elas são crônicas.
Como são essas injúrias morais que os profissionais de saúde sofrem? É você virar para uma mãe e falar assim: “Não posso dar todo o atendimento que você precisa. O medicamento que você precisa, o SUS não fornece, o seu plano de saúde não paga.” É virar para a mãe e falar assim: “Olha, não tem fonoaudiólogo para o seu filho, e seu filho não vai desenvolver adequadamente por causa disso.” É a gente sofrer moralmente porque quer dar o melhor para o nosso paciente, mas ser impedido pelo sistema financeiro e por aí vai de dar aquilo que ele merece. E a gente tem que carregar isso o tempo todo. Nós, profissionais de saúde, temos que lidar com a morte, temos que lidar com abusos sexuais, temos que lidar com abusos físicos dos nossos clientes. E quem é que dá apoio para nós? Não dá. Não tem. Ninguém dá esse apoio adequadamente.
Existe também uma exploração da paixão vocacional. Existe aquela questão: “Eu amo ser médico, eu amo ser psicólogo”, e realmente isso existe; nós todos amamos isso. Mas isso é explorado, porque se aproveita dessa paixão que nós temos para fazer a gente trabalhar mais. “Mas você não ama tanto a medicina? Por que não trabalha um pouco mais? Por que você não fica uma hora a mais no trabalho? Pode ficar.” E o interessante é que se explora isso de forma que a gente não é remunerado. Também se aproveita disso sistemicamente, numa cultura que é criada e estimula a gente a trabalhar mais do que a gente é capaz.
Parte da frustração e da raiva expressas pelos participantes de entrevistas com profissionais de saúde parecia ser direcionada não tanto às iniciativas em si, como a instalação de uma academia no hospital, que tinha um potencial de ser útil, mas ao fato de as iniciativas estarem sendo implementadas na ausência de reduções substanciais da carga de trabalho, de líderes que sirvam de exemplo de integração saudável entre vida profissional e pessoal, de mudanças nos valores profissionais e de valorização salarial.
Recentemente, na PBH, nós tivemos um trabalho que chamava Saúde em Rede, em que a gente fechava a agenda dos profissionais e ia para um grupo, fazer uma espécie de grupo de reflexão, para aplicar como atender melhor os pacientes, como organizar o ambiente de trabalho e tudo mais. O Saúde em Rede é maravilhoso. Qual é o problema dele? Nada dele foi implementado. E sabe por que não foi implementado? Porque falta mão de obra, falta profissional, falta salário adequado, falta redução da carga de trabalho para a gente conseguir aplicar o que de melhor foi produzido naquele Saúde em Rede. Se a gente aplicasse o que nossos profissionais cogitaram naquilo, teorizaram, fizeram planos, se a gente tivesse investimento adequado, apoio político adequado, apoio dos nossos gestores, nossa saúde estaria muito melhor, não só a dos profissionais, também a dos pacientes.
Vários Saúde em Rede em que a gente estava discutindo casos de autismo, por exemplo, a gente tinha ideias maravilhosas para aplicar. Falava-se assim: “A gente vai fazer o fonoaudiólogo ir lá a cada semana, vai fazer um trabalho de fisioterapia legal com aquele paciente, a gente vai fechar a agenda do médico aqui para ver se a gente fica um tempo focado.” Foi aplicado? Não. Nada é exagero meu. Algumas coisas foram, mas a maioria das coisas realmente boas, produtivas, não foi aplicada. E aí os profissionais olham para aquele Saúde em Rede, que é o exemplo da instalação de uma academia no hospital, e falam: “Para que eu fui lá? Eu perdi meu tempo ali, foi um desperdício.”
Continuando nessa questão da lesão moral, espera-se que os profissionais forneçam cuidados compassivos e sem erros em um sistema de saúde assolado por financiamento limitado, falta de pessoal e longos tempos de espera. Os profissionais de saúde estão sofrendo de burnout. Suas vidas pessoais estão em crise, estão enfrentando depressão, abuso de substâncias, aumento de suicídio. Isso tudo são questões sistêmicas que estão impedindo os nossos profissionais de serem saudáveis e, consequentemente, de dar o atendimento que eles sabem que têm que dar.
Não é porque os nossos profissionais não estão querendo trabalhar, não é que eles estão tirando atestado para ficar à toa em casa. É porque todo dia eles chegam lá no local de trabalho deles e falam para eles: “Olha, sabe o médico de apoio que te dava apoio aqui para atender nove pacientes a mais por dia? Não vai ter mais, porque a gente está fazendo corte de gastos.” E aí ele vai ter que aumentar a carga de trabalho dele para conseguir sustentar, dar apoio para aquelas pessoas, porque ele quer ver aquelas pessoas saudáveis, mas não dá conta. Então, a gente tem que ter esse cuidado também. É uma questão sistêmica.
Há insuficiência de trabalhos voltados para o indivíduo sem uma proposta de solução sistêmica. Novamente volta a questão do Saúde em Rede, volta a questão de “vamos ter uma academia aqui, vamos ter uma creche aqui no hospital”. Beleza, estão voltando para o indivíduo, mas está valorizando esse profissional? Você está dando salário adequado para ele? Está dando tempo de descanso? Está permitindo que ele tenha tempo para fazer discussões aprofundadas sobre um caso complexo? Não está. Então, o que adianta? É bom que tenha, gente. É bom, sim, ter essas soluções individuais. Na verdade, é necessário. Mas só isso é enxugar gelo.
Embora a maioria dos participantes afirmasse que amava o trabalho de ser médico — e isso entra para as outras profissões também —, sentia que a profissão médica estava se afastando dos valores de cuidado e compaixão que inicialmente os levaram a se tornarem médicos. Em vez disso, perceberam que os valores organizacionais e profissionais tornaram-se fluxo, capacidade, produtividade, orçamento e cumprimento de metas.
Recentemente, eu vi um contrato que um colega meu mandou de um hospital, e no contrato estava escrito assim: “Se você pedir mais que dez exames, você não vai receber o valor adequado; aquele valor vai ser debitado do seu salário, do seu repasse. Ou, se o seu paciente, depois de uma semana, tiver alguma intercorrência e tiver que voltar para um pronto atendimento, seu repasse também vai ser diminuído.” Isso faz sentido? A gente está punindo por uma coisa que pode acontecer naturalmente. E, pensando no campo da psiquiatria, que é o campo em que eu atuo, os nossos pacientes intercorram. A gente pode estar com o melhor medicamento, mas a mente é variável; então, o profissional vai receber menos por causa daquilo.
Penso também, por exemplo, em profissionais que necessitam de exames para sobreviver, como os reumatologistas. Os reumatologistas têm que pedir uma carreada de exames, porque o trabalho deles é ver exame. E eles são punidos por fazer o trabalho deles no sistema de saúde. Isso não faz sentido nenhum. Ou seja, volta à mesma questão: nos campos da educação e da saúde, corte de gastos aumenta os gastos, aumenta o trabalho dos profissionais, piora a qualidade do atendimento.
Na pesquisa de funcionários do Serviço Nacional de Saúde de 2022, mais de um terço dos funcionários não se sentia seguro para expressar quaisquer preocupações relacionadas ao trabalho, e mais da metade, 51%, não tinha confiança de que sua organização daria atenção às suas preocupações caso as levantassem, o que sugere que ainda há trabalho a ser feito nesse sentido. Ou seja, o profissional, mesmo se levantar seus questionamentos, como foi feito lá no Saúde em Rede aqui em Belo Horizonte, em 51% sentia que aquilo não era levado a sério, era ignorado.
Imaginem vocês, como profissionais comuns, chegando lá no seu gestor e falando assim: “Gestor, meu trabalho aqui está pesado; não tem como trocar de lugar ou fazer outro trabalho? Eu sou bom de encanamento, mas você está me colocando aqui na eletricidade; vamos me trocar para a hidráulica.” O gestor tem a coragem de falar: “Beleza, vamos fazer isso aí.” Com a gente, em 51%, isso não é feito. Aí a pessoa vai para o trabalho desvalorizada dessa forma. Ela não é escutada, ela não é olhada. Os nossos gestores não escutam os profissionais que estão lá na ponta fazendo o trabalho, e aí eles se sentem desanimados mesmo.
Aí fica se falando assim: “Ah, que médico não gosta de trabalhar, que psicólogo não gosta de trabalhar, que enfermeiro não gosta de trabalhar, que é tudo mercenário”, entre aspas. Mas, quando a gente fala uma questão nossa para melhorar a qualidade de atendimento do paciente — a gente nem está falando da gente ainda, não; estou falando do paciente —, a gente não é escutado.
As organizações de saúde muitas vezes enxergam o cuidado ao paciente sob a ótica dos interesses comerciais e financeiros, o que não é problemático em si. Afinal, hospital precisa ter dinheiro para pagar todo mundo. O problema surge quando o modelo de negócios entra em conflito com a prestação de serviços de saúde, em momentos em que os profissionais de saúde são obrigados a atender mais pacientes do que são capazes, especialmente com recursos insuficientes. E quando os sistemas não consideram o impacto que essas prioridades conflitantes podem ter, tanto sobre os profissionais de saúde quanto sobre os pacientes.
Certo ou errado, muitos profissionais de saúde relatam sentir-se obrigados a atender mais pacientes do que têm capacidade para cuidar adequadamente e relatam sentimentos de se sentirem descartáveis e desvalorizados. Tem como um profissional atender bem se todo dia ele vai trabalhar e se sente descartável, sente que é inútil, que não é valorizado, que não recebe o salário adequado, que não tem uma sala legal para o psicólogo fazer o atendimento, para fazer um breaking bad news, que é falar a má notícia para o paciente de morte e tudo mais? Se não tem a sala adequada, se a gente não é valorizado, a gente se sente inútil, a gente se sente mais doente, e piora tudo aquilo que a gente falou das injúrias morais.
Isso aqui é extremamente importante, porque nós temos que refletir para onde a gente quer caminhar com a nossa saúde. E, se a gente não der suporte para os profissionais de saúde, nós não vamos ter uma saúde boa para os nossos pacientes. Porque as mesmas questões que os pacientes falam, gente, que não tem atendimento adequado, que não tem profissional para atender, que tem que ficar quatro horas de espera, eu tenho uma notícia para vocês: os profissionais de saúde passam pela mesma coisa, exatamente pela mesma coisa, porque eles são seres humanos e são trabalhadores como todos os outros. Nós não somos super-homens. Nós precisamos ser respeitados como trabalhadores que somos.
Nós sofremos injúrias morais cronicamente na nossa vida como profissionais de saúde. É a gente não ter equipamento adequado para atender, não ter profissional adequado, não ter mão de obra adequada, sentir que eu tenho que dar conta. Porque está lá na fila do médico do posto de saúde trinta fichas para ele atender. Um médico, trinta fichas, sendo que já falei: é sugerido por volta de uma hora de atendimento por consulta. Como é que esse médico vai dar um atendimento adequado para trinta fichas no dia? E, se a gente corta médicos, como está sendo feito agora com os contratos na PBH, isso aumenta o trabalho do médico, aumenta o trabalho do enfermeiro, aumenta o trabalho do psicólogo, diminui a qualidade de atendimento, diminui a valorização do profissional. Aí começam a aparecer atestados porque está cansado, está com burnout; diminui o número dos médicos que estão lá, sobrecarrega os outros, vira uma bola de neve. Então, na área de saúde e na área de educação, não funciona corte de gastos.
Eu vou dar um exemplo fácil para vocês, na área da educação. Digamos que um professor dê uma aula de sessenta minutos de matemática para uma turma de vinte pessoas. Se nós colocarmos um outro professor, vai diminuir o tempo dessa aula para trinta minutos? Não é assim que funciona. Se a gente colocar três, vai diminuir para vinte? Então vamos otimizar e colocar quatro professores lá, para em dez minutos a gente dar a mesma aula de matemática? Não funciona assim.
Um médico, quando vai fazer uma cirurgia, geralmente são dois médicos que ficam lá. Se a gente adiciona um terceiro cirurgião, não vai diminuir o tempo da cirurgia. A cirurgia vai correr no tempo que ela precisa. Ou seja, para a gente dar um atendimento adequado para os nossos pacientes, nós temos que ter um tempo adequado de atendimento, que é científico. Isso não é invenção dos médicos. Não é um médico que um dia inventou e falou assim: “Olha, eu preciso de uma hora de consulta.” Não, gente, isso é pesquisa científica. Os enfermeiros já fizeram as pesquisas também, os psicólogos também. A questão é que os nossos gestores de saúde não estão seguindo as orientações científicas. Eles querem produtividade, querem metas.
Um colega meu me mostrou um contrato que falava assim: “Olha, você tem que atender no mínimo dez pacientes por dia em menos de quatro horas. E, se você não bater essa meta, não vai ser repassado o valor X do benefício; vai ser um valor menor.” E essa foi a meta mais tranquila que eu vi. Geralmente é exigido muito mais que isso. Tem alguns hospitais que têm um psicólogo no hospital inteiro. Não faz sentido ter um psicólogo para o hospital inteiro. Um hospital tem cento e tantos leitos, um psicólogo só. Tem hospitais que diminuem a carga dos médicos, diminuem os enfermeiros. Isso piora a qualidade do atendimento. O que tem que ter na área de saúde, e voltando aqui para a área de saúde, é investimento. É aumento do gasto, é aumento do investimento, é compra de produtos, é compra de trabalho, é compra de tecnologias. Isso sim melhora a qualidade de atendimento.
Tem sido frequentemente relatado que, durante a pandemia, os profissionais de saúde sentiram culpa por decepcionarem as pessoas, muitas vezes como resultado da incapacidade de fornecer cuidados centrados na pessoa e da sensação de cumplicidade em um sistema menos equipado para oferecer cuidados de alta qualidade. E a má notícia: esse sentimento de culpa continua. A mesma coisa. Não mudou nada. Porque nós continuamos sentindo culpa por não oferecer um tratamento adequado para os nossos pacientes. Nós queremos dar o melhor, mas o sistema, a forma como é organizado financeiramente o centro de saúde, até o pessoal da saúde complementar e suplementar, não permite que a gente dê o tratamento que quer dar, o tratamento que a gente estudou lá no livro, que é o melhor para o paciente. A gente tem que ficar rebolando, tem que escolher qual paciente vai receber o tratamento ou não, qual paciente vai ser atendido primeiro ou não. Isso não deveria ser assim.
Quais são as estratégias que a gente pode fazer para melhorar essa questão? É reconhecer que a recomposição salarial e planos de carreira não são apenas pautas econômicas, mas estratégias de saúde pública para prevenir o colapso dos curadores. Ou seja, não existe corte de gastos na saúde. A gente tem que ter aumento do investimento, recomposição salarial adequada acima da inflação — como mostrei para vocês, não está tendo — e também plano de carreira adequado. O que adianta ter um plano de carreira se o aumento do plano de carreira é menor do que o aumento dos gastos da sociedade, menor do que a inflação da sociedade? Não faz diferença. A pessoa está perdendo dinheiro e fica trabalhando lá.
Também a gente tem que combater ativamente o mito da invulnerabilidade e falar que o profissional que busca ajuda deve ser visto como responsável, não como incapaz. Isso é uma questão cultural que a gente tem que trabalhar nas nossas academias e falar que o médico tem que, sim, buscar ajuda; não tem que ter cargas horárias abusivas, como, por exemplo, os residentes de ginecologia e obstetrícia fazem cargas loucas de mais de sessenta horas por semana. E o pior: é tratado isso como se fosse normal. Não é normal. Como assim um residente tem que trabalhar sessenta horas? E o tempo para ele estudar? E o tempo para ele descansar? E o tempo para ele dormir, para conseguir absorver o que aprendeu? O tempo para ele preparar um artigo? O tempo para ele dar o cuidado adequado para aquele paciente? Não faz sentido. Isso não é só na ginecologia e obstetrícia, não. Estou usando ela porque é o exemplo mais extremo, mas outras residências na área de saúde têm isso.
Então, a gente tem que garantir os tempos de descompressão durante a jornada e combater o subdimensionamento que gera sobrecarga física e mental. A gente tem que ter aumento salarial, diminuição da jornada de trabalho. A escala 4×3 está aí como debate, e eu acho que é uma coisa interessante de a gente discutir.
Os profissionais de saúde devem ser considerados como trabalhadores e humanos comuns. Gente, a gente é normal. A gente come, a gente bebe água, a gente dorme. Eu sei que parece que tem uma mitologia aí de que a gente é super-homem, usa um jalequinho branco de pureza, usa uma auréola ao redor do pescoço, nosso estetoscópio, e falaram que a gente é santo. Mas não. A gente é tudo falho, a gente é humano, a gente erra, a gente come, a gente bebe e dorme. Então, tem que garantir isso. A gente sabe que o trabalhador da indústria, que está lá trabalhando em altas altitudes, está lá no posto de petróleo, no meio do mar, tem que ter um descanso adequado. Por que o profissional de saúde não pode? Por que o profissional da saúde, lá no plantão noturno, não pode dormir? Não só pode comer, tem que dormir. Porque, se ele não dormir, começa a cometer erros. Aí o que tem que ter? Tem que ter mais trabalhadores para suprir a deficiência do colega que está descansando e fazer um rodízio adequado para não deixar os pacientes com uma longa lista de espera.
Numa visão espiritual, para a gente terminar, é uma obrigação de nós, cristãos, lutarmos por uma saúde de qualidade para todos. Nós, como cristãos, pessoas que seguem o Cristo, temos a obrigação de garantir que a sociedade esteja saudável. É obrigação nossa ajudar as pessoas que estão sofrendo. Se os profissionais estão sofrendo, é obrigação nossa descobrir o que está fazendo sofrer e resolver aquilo. Se os nossos pacientes estão sofrendo, a mesma coisa. Então, é uma obrigação cristã. Nós temos a fraternidade universal para trazer uma sociedade mais justa, mais equilibrada para todos e com mais empatia também.
Então, é importante o posicionamento do “não”. A gente tem que ajudar os nossos profissionais de saúde a aprender a falar não. Se o gestor começar a exigir muita coisa dele, ele tem o direito de falar não, que não dá conta, que não pode, que precisa de outro apoio. Isso é um problema, porque existe a instabilidade de emprego, existe a questão da pejotização da medicina, em que eu nem entrei para não ficar tenso, mas é importante a gente aprender a falar não para coisas que estão além do que a gente é capaz.
É importante também a gente ver os profissionais de saúde com cuidado horizontal. A gente não está lá para decidir a saúde do paciente; a gente está lá para aconselhar a saúde do paciente. Ou seja, o paciente pede um conselho para nós, a gente dá a nossa técnica, o nosso estudo, e fala assim: “Olha, esta aqui é a minha técnica, o estudo que eu tenho, e eu vou te ajudar nesse caminho.” Nós não estamos decidindo que o paciente tem que tomar o remédio quando ele tem diabetes. Nós estamos dando o nosso conhecimento técnico, o nosso conselho para ele, e falando os caminhos que ele pode seguir naquele atendimento. Nós somos apoiadores da saúde, não determinadores da saúde.
Também lembrar da empatia como fator protetor. Como os profissionais de saúde têm muita empatia pelos pacientes, a gente também tem que lembrar, paciente, de ter empatia pelos profissionais de saúde, porque eles também estão sobrecarregados, eles estão exatamente como vocês. Essa é a questão que a sociedade precisa entender: o mesmo sofrimento que a sociedade está tendo de não ter saúde adequada, não ter medicamento adequado, não ter trabalhadores adequados, não ter fonoaudiólogo para a filha, não ter psicólogo para a mãe, seja lá o que for, é o mesmo sofrimento que os profissionais de saúde têm. Eles também estão frustrados com isso. E não são eles que decidem se você vai ter psicólogo ou não. É porque não tem. É porque não tem.
Vira e mexe faltam medicamentos básicos na área da saúde para os pacientes. Não é porque o médico não quer prescrever aquilo; é porque não tem. Então, o problema não é dos trabalhadores na ponta, que têm que ficar decidindo em ritmo de guerra o que vão fazer. Tem um estudo que um pessoal fez sobre o impacto na saúde mental de mulheres médicas e descobriu que as mulheres médicas têm o mesmo impacto na saúde mental, social e emocional que pessoas que vão para a guerra. O mesmo impacto, o mesmo sofrimento que o soldado lá sofreu na guerra, vendo todas aquelas atrocidades humanas, as mulheres médicas sofrem também. Porque nos são colocadas situações de guerra e penúria para a gente ter que decidir qual paciente merece o medicamento ou não, o tratamento ou não, sendo que isso não é obrigação nossa. Nossa obrigação é orientar o tratamento, falar o que é melhor para o paciente, e o sistema permitir que aquele paciente tenha acesso àquilo. Não é o médico, a psicóloga, a enfermeira que estão impedindo o paciente de ter aquele acesso. É o sistema que não está fornecendo para aquela pessoa, está falhando com aquela pessoa no cuidado que ela merece.
Para isso, a gente tem que sair da raiva, lá na UPA, quando estiver com oito horas de espera para ser atendido. Não é o médico que está dormindo lá e não está atendendo, não é a enfermeira que não está fazendo o trabalho dela, não é o psicólogo que não está fazendo acompanhamento. É porque não tem profissional suficiente. Aí o enfermeiro tem que falar assim: “Olha, esse aqui vai morrer em uma hora. Esse aqui pode morrer em duas”, e ela tem que decidir. E, caso vocês não tenham percebido, isso é o que o pessoal faz na guerra para decidir quem vive ou não, quem vai receber o tratamento primeiro. Não deveria ser assim.
Então, nós temos que ter mais empatia para que a gente cuide mais disso e melhore esse sofrimento todo. Os sofrimentos dos pacientes são os sofrimentos dos profissionais. Esse é o primeiro passo dos nossos estudos nessas quatro semanas. Nas próximas semanas, a gente vai aprofundar mais em outros temas mais psicológicos, emocionais e até ficar mais abstrato no campo espiritual. Mas, para a gente conseguir ajudar os profissionais de saúde, nós temos que saber tudo isso que está acontecendo com eles. E tudo isso que eu estou falando para vocês são artigos. Vocês podem conferir, podem ler, podem ver o que está adequado ou não no que eu falei, mas nós temos que melhorar essa situação sistêmica. E nós, como civis, votantes, temos o poder de fazer melhorar, exigir dos nossos políticos, exigir dos nossos gestores que melhorem isso para nós também, porque nós também sofremos com essa escassez.